whackem

Whack’em

por Daniel Souza

O telefone tocou sobre a escrivaninha. Roger esperou a campainha soar duas vezes e o atendeu.

-Alô.

-E aí, vocês estão dentro?

Roger levou um susto e quase deixou o fone cair de sua mão.  “Quem é que começa uma conversa ao telefone sem um ‘alô’? ”-pensou.  Ficou calado por um segundo.

-E aí, estão? – a outra pessoa continuava a perguntar. Soava como a voz rouca de um homem de meia-idade.

É claro, era o promotor de eventos.

-Ah, Colin, como vai?- cumprimentou Roger. – Estou agora mesmo olhando a agenda deles.

-O lineup do primeiro dia já tá pronto. Pro segundo dia faltavam duas bandas. O Scavengers confirmou ontem, agora falta uma. E aí, o Merridew vem ou não?

-Deixa eu conferir. – Ele abriu uma tabela no computador. -Dia 16 eles vão tocar no Pandemonium, em Altbrück, daí a banda vai fazer um intervalo pra descanso no fim de semana e dia 19 eles tocam na Bockschafer Arena.

-Puta que o pariu, não dá pra encaixar eles pro dia 18? -Colin implorou ao agente. – A gente precisa de uma banda para o after hours.

-Como é que é isso?

-É um formato novo que a gente vai usar esse ano. Depois do headliner, a gente coloca mais uma banda pro fim de noite, pra quem quiser curtir. Andavam reclamando que o festival acabava cedo demais e….

-Não sei se eles vão aceitar- disse Roger, coçando a cabeça.

– Pensa bem! Um “anúncio de última hora” da vinda deles vai atrair muitos fãs.  Vai ser o maior público da turnê, com certeza!

O agente ponderou e respondeu.

-É… Eu posso remarcar o intervalo. Vou conversar com eles.

-Então isso é um sim?

-Hum… sim.

-Então está confirmado: o Merridew está no Whack’em Festival. Dia 18, palco 2, às 01h00.

-OK…

Colin encerrou a ligação.

O agente pôs-se a discar outro número. Esperou a linha tocar seis vezes até alguém atender.

         -Alô- disse uma voz baixa do outro lado, queixosa e um tanto sonolenta. – Putz, que dor de cabeça!

       -Patrick? Onde você tá?

-Roger? Eu tô no ônibus com a maior ressaca. Por favor, fala mais baixo!

-Viu, vocês vão tocar no Whack’em dia 18.

Patrick Childs, guitarrista e líder do Merridew, se levantou num só salto do sofá do ônibus que levava a banda na turnê False Dichotomy.

-Quê? Cê tá louco, meu?

– Qual é o problema? Podemos adiar o intervalo para a semana que vem.

-Porra, Roger, no Whack’em a gente não toca!

-Por que não?  Que merda de músico é você que quer deixar passar a chance de tocar num festival importante?

– E que merda de agente é você que toma decisão sem falar com a banda toda?  Você sabe quem vai estar lá esse ano, e onde eles tocam eu não toco!

– Ah, não vá me dizer que é por causa daquela discussão com o vocalista do Souverän. Já faz cinco anos que isso aconteceu. Eu pensei que estivesse trabalhando com profissionais aqui, não com crianças!

-Você não tem noção de como o cara é chato! Aqueles papos de seitas secretas e civilizações perdidas. Eu não quero saber disso, não mesmo.

-Calma, Patrick, são dois dias de festival. Pode ser que vocês se apresentem em dias diferentes e nem vejam a cara um do outro. Vou conferir.

Roger abriu o site da revista Headbangers no computador. A homepage já tinha sido atualizada com uma manchete que dizia: “Whack’em Festival- confirmado lineup final do evento”. Na galeria de imagens havia uma foto de um Patrick Childs de olhos esbugalhados, decorrentes de sua mania característica de não piscar durante os solos de guitarra. Uma legenda acompanhava a foto, dizendo: “Os senhores do thrash metal Merridew são os últimos a confirmarem participação.” Em outra chamada no site: “Devilish Delight e Souverän são os headliners dessa edição. Confira os horários aqui.”

Roger clicou na chamada.

-Vejamos. Dia 18 de julho, Palco Principal. Às 22h00, Souverän. 01h00, Merridew.

-Merda! – exclamou o guitarrista. – A gente vai tocar de madrugada? Não acaba meia-noite? Que horário louco é esse?

-É um formato novo… Vai ter bastante público, aproveitando o show do Souverän.

-E daí? Não quero tocar no mesmo evento que eles. Liga pro organizador do evento e cancela.

-Não dá! Já fomos anunciados.

-NÃO QUERO SABER! CANCELA!

Patrick ia desligar o telefone na cara do agente quando seu colega de banda, o baixista Larry Morgan, entrou no dormitório. Despenteado e segurando uma xícara de café, ele falou:

-Deixa que eu converso com o Roger.

            O guitarrista, irritado, jogou o celular para Larry e se dirigiu ao banheiro, batendo a porta.

-Não esquenta com o Patrick; assim que ele se recuperar da bebedeira ele muda de ideia- disse o baixista rindo – Quem é louco de perder o Whack’em?

-Beleza. Vai avisando os outros que eu já vou reservar o hotel. Menos mal que não temos que desviar muito do roteiro da turnê; fretar um avião está cada vez mais caro. – disse o agente.

-Quem dera a gente pudesse comprar um jato igual ao do Souverän. Seria bem louco a gente disputando corrida com eles, dominando os céus como ases.

  -É… Até lá a gente tem que chegar a disco de platina como eles.

—-

Dia 18 de julho chegou e milhares de espectadores ocupavam o gramado do parque onde o Whack’em Festival acontecia. O símbolo do festival (um esqueleto brandindo uma guitarra como se fosse um porrete) estampava faixas em todo o terreno, bem como placas na rodovia indicando a direção para o local dos shows.

Era fim de tarde e no palco secundário a novata Guttural Assault, uma das promessas do black metal, se apresentava. Nas primeiras filas, jovens fãs se entrechocavam num mosh pit frenético.  No palco principal, os veteranos Scavengers, em sua turnê de despedida.

– Eu não acredito que eles vão acabar- disse um homem de jaqueta de couro e longa barba branca, sem disfarçar as lágrimas.

-Tudo tem seu fim, amigo. Ao menos a música será eterna- disse outro, calvo e de bigode, dando tapinhas em seu ombro.

A apresentação dos Scavengers acabou às 21h30 horas. Logo em seguida os roadies do Souverän subiam ao palco, carregando e preparando os instrumentos, fazendo a passagem de som para o  show mais esperado da noite.  No camarim, o Merridew esperava sua vez de tocar. Brett Anderson, vocalista, fazia exercícios fonoaudiológicos. Wayne Morgan contava uma piada para o baterista Michael DeFilipo, que ria muito. Patrick Childs estava taciturno em um canto.

Wayne se aproximou de Patrick e disse:

-Viu quanta gente lá fora? A gente nunca teve um público assim. Vai ser o melhor show da banda!

– Esse after hours, não sei não. Não quero encontrar meia dúzia de gatos pingados depois que a galera que só veio ver o Souverän for embora. Quero dizer, eles tem bem mais fãs que a gen…. – disse Michael.

Patrick deu um olhar carregado ao baterista.

-Que foi que eu falei de errado?- perguntou Michael.

O baixista articulou com os lábios o nome da outra banda, sem emitir som.

– Ah, você não vai com a cara do Anders Ekmann, né? Aquele dia em que ele falou de um incidente bizarro que aconteceu numa cidadezinha da América Latina. Que que era mesmo?

Cenas de cinco anos atrás, de um show em Cedartown, vieram à cabeça de Patrick. O Merridew, em começo de carreira, era a banda de abertura do Souverän naquela turnê, e após o concerto ambas foram confraternizar num bar. Lá, Ekmann começou a contar que tinha lido uma notícia num jornal sensacionalista sobre moradores de uma cidadezinha que disseram ter visto luzes no céu e a estátua de bronze da praça flutuando no ar e se dissolvendo. Patrick sempre fora cético quanto a essas histórias, mas sua contraparte estava convicta de que aquilo tinha acontecido de verdade. A isso se seguiu um bate-boca, que poderia ter evoluído para uma briga não fossem os seguranças e os deixa-disso dos dois lados.

Patrick crispou as mãos e disse:

– Se eu encontrar aquele palhaço no backstage, não responderei pelos meus atos, podem ter certeza.

Wayne e Michael trocaram olhares despreocupados, como se considerassem aquilo apenas uma provocação vazia. Brett comentou:

– Descarrega essa raiva na música, cara.

Uma nuvem de fumaça invadiu o palco. Feixes de luz varriam o espaço e o som de trombetas se ouvia de alto-falantes posicionados junto ao público. Refletores foram se acendendo um a um, revelando silhuetas que emergiam da nuvem.

-Boa noite, Whack’em! Nós somos o Souverän! – berrou Anders Ekmann no microfone – Essa aqui vai estar no disco novo.

Aos primeiros acordes de guitarra de “I’ll Fight Till I Die”, o público vibrou. Era uma música com arranjo um pouco mais pop, seguindo a tendência de Focus of Ire, o álbum anterior, que vendeu meio milhão de cópias mundialmente. Após essa canção seguiram-se as mais antigas “Not If, But When” e “Sovereign Kings”, que nunca faltava no setlist.

A plateia estava muito animada com o desempenho dos músicos.  Objetos foram atirados ao palco, incluindo bandeiras com o logo do grupo, algumas calcinhas e até um dinossauro inflável gigante, ao qual o guitarrista do Souverän, Heinrich Ritter, recolheu dizendo que seria a nova mascote da banda.

O Merridew assistia ao show no camarim, por um monitor.

-Olha só esse Ritter, que figura!- comentou Michael. -Ele sabe trabalhar o público. Que é que você acha, Wayne?

-Ah, ele até que é bom, mas nada espetacular.  Nessa última ele atrasou um pouco o riff, depois do primeiro refrão, você percebeu?

-Que é que você sabe de riff?  Você é baixista!

-E você é baterista!

-Esquece isso. Vamos continuar assistindo.

Os músicos do Souverän pararam de tocar e ficaram assim por cinco minutos, que pareceram muitos mais para o público ansioso. Alguns membros da plateia, mais experientes, já sabiam o que vinha a seguir.

Hey sad eyed man/Your eyes are turning red…” começou a cantar Anders. “You’re doing the best you can /But I can see you’re getting mad …” — continuou a multidão, em uníssono. O momento havia chegado: a canção que se tornara um hino do grupo, Focus of Ire, incendiou o Whack’em Festival.

Wayne acompanhava o ritmo da música com balanços de cabeça.  Brett batia o pé, um pouco menos empolgado. Patrick se levantou, irritado:

-Vocês estão muito relaxados pra quem vai tocar depois! Ainda mais ouvindo esse babaca.

-Patrick, por que tanta implicância? O negócio aconteceu faz tempo. Deixa o cara acreditar no que quiser!

-Não é só isso, Brett. Foi a maneira estúpida, arrogante com que ele me respondeu aquele dia.

-Ele nem deve se lembrar daquilo.

-O filho da puta se achava o dono da verdade, acreditando naquela baboseira de tabloide. Eu estava no meu direito de questionar o cara. – Patrick não piscava, da mesma maneira quando tocava seus solos de guitarra.

– Você está sendo idiota. Para com isso. – Brett disse com firmeza.

“Can you feel this fire/they’re the focus of your ire” -cantou Anders no palco. O arrebatamento do público era completo.

Algumas das pessoas no festival estavam sendo filmadas e exibidas num telão, sorridentes e entoando a letra a todo fôlego. Naquele momento, era um garoto adolescente, que não destoava dos demais fãs de heavy metal no show (cabelo comprido, camiseta preta, um tanto gordinho), mas que olhava fixamente para Anders.

O vocalista, ao ver o garoto no telão, subitamente parou de tocar.

      -N-não! Isso que você está me pedindo é a-absurdo. Vocês não podem c-continuar com essa loucura! – disse atônito.

O público ficou perplexo. Grupos de pessoas começavam a se inquietar e cochichar; quem da plateia estaria atrapalhando o show? Os demais integrantes do Souverän se entreolharam, a perplexidade estampada em seus rostos. Heinrich Ritter se aproximou do colega, mas ele o afastou com um gesto de braço.

O garoto da plateia continuava encarando o vocalista, com mais intensidade. Ele viu, ou pensou ter visto um tênue brilho violeta ao redor do menino.

-O qu-que aconteceu em Liergeel ano passado foi obra de um de vocês! Em Villanueva… E na Ásia! Disso eu sei!  Eu não quero ter parte nisso! Saia daqui! Deixem eles em paz! – Sua voz e linguagem corporal transpareciam pânico.

  “Desculpem, pessoal, mas não posso mais cantar. É sério! Algo terrível vem acontecendo e continua a acontecer no mundo todo. Vocês todos estão correndo risco. É melhor… É melhor… irem embora! Fiquem longe desse moleque!”

Ele jogou o microfone do chão e estava prestes a deixar o palco. O ruído estridente do feedback cortou o ar, irritando os ouvidos de todos os presentes.

-Ah não! Ele está com essa conversa de novo. Vou dar um jeito nesse louco!- disse Patrick, irado. Antes que Brett conseguisse barrar a porta, o guitarrista do Merridew já tinha deixado o camarim.

No festival, o ar ondulou com a mesma aura violácea que Anders (agora tinha certeza) vira ao redor do menino. A expressão do garoto tinha mudado; agora era serena.

They are doing their things/ripping of your wings/what can I do?- berrava Anders no microfone.  Mas o que aconteceu? O tempo voltou? Eu estava prestes a deixar o palco– pensava o vocalista.  Ao seu redor, os músicos tocavam da mesma maneira que antes, como se nada tivessem percebido.

A sensação de lapso temporal se fora rapidamente, como uma onda de choque. O vocalista já estava fora do palco, correndo em direção à estrada. O público e a imprensa especializada se acotovelavam em direção a ele, curiosos para saber o que tinha acontecido. Seguranças foram mobilizados ao longo das saídas da pista e das grades que a delimitavam, para impedir que a massa de gente o alcançasse, bem como as equipes de emergência, que já estavam de prontidão caso alguém se ferisse no tumulto.

Anders olhou para trás. Procurou o garoto, mas não conseguiu mais vê-lo entre a multidão. Virou-se novamente em direção à estrada. Eventos de natureza absurda estavam devastando o mundo, e ele e queria estar o mais longe possível da causa deles.

Patrick chegou ao palco, ofegante e possesso. Olhou para os lados, perguntando:

-Anders! Cadê você, seu maldito?

O guitarrista do Merridew estava praticamente sozinho lá em cima. Vendo a comoção na platéia, que já se transformava em um estouro, ele perguntou.

-O que está acontecendo?- perguntou para um dos roadies, que recolhia a guitarra de Heinrich Ritter.

-E-eu não sei. Ele surtou, começou a falar umas coisas sem nexo e saiu do show. Os outros foram atrás dele.

Um sujeito de meia idade, corpulento e com ar preocupado subia ao palco. Era Colin, o organizador do Whack’em. Ele tomou o microfone e disse ao público:

-Gente! Infelizmente, teremos que interromper o Whack’em Festival. Por favor, fiquem calmos. Nossa equipe vai se juntar ao Souverän e tentar resolver essa situação. – E para Patrick, ele falou:

-Desculpem. Sei tanto disso quanto vocês.

Wayne, Brett e Michael seguiram Patrick. Ao receberem a notícia, olharam decepcionados e desceram do palco de volta ao ônibus. No caminho, Wayne parou e apontou para o horizonte:

-Sou só eu ou tem em um vulto ali? Parece uma coisa meio roxa.

-Tem um vulto menor também. É um menino? –comentou Brett.

– Não é nada! Vamos embora dessa merda! Eu falei. Nem devíamos ter vindo aqui. Eu sabia! Louco do caralho! -disse Patrick, fechando a porta do ônibus.

—-

Roger estava encerando sua prancha de surfe quando recebeu uma ligação do celular. Era o executivo da gravadora.

-Roger, amigo, como vai?

-Bem, na medida do possível.

-Como é que está o Patrick?

– Ainda na terapia de controle da raiva. A doutora Fairchild está fazendo um bom trabalho.

– Quando você acha que o Merridew vai se reunir de novo?

-Não sei, Martin. Desde o Whack’em ninguém está querendo ensaiar ainda. Sei lá…

-É… chato.

-Falando nisso, já faz seis meses e ainda não acharam o Anders Ekmann. Alguém tem alguma pista do paradeiro dele?- disse Roger.

-Nenhuma; tudo na mesma.-respondeu Martin.- Mesmo com a banda declarando hiato, a Fortress Records está vendendo boxes do Souverän como nunca.

-Tragédias vendem, infelizmente. Na verdade, acho que vou largar esse ramo de agenciar músicos. Muito estressante.

-Vai fazer o quê da vida?

-Por enquanto, vou pegar onda.