whackem

Whack’em

por Daniel Souza

O telefone tocou sobre a escrivaninha. Roger esperou a campainha soar duas vezes e o atendeu.

-Alô.

-E aí, vocês estão dentro?

Roger levou um susto e quase deixou o fone cair de sua mão.  “Quem é que começa uma conversa ao telefone sem um ‘alô’? ”-pensou.  Ficou calado por um segundo.

-E aí, estão? – a outra pessoa continuava a perguntar. Soava como a voz rouca de um homem de meia-idade.

É claro, era o promotor de eventos.

-Ah, Colin, como vai?- cumprimentou Roger. – Estou agora mesmo olhando a agenda deles.

-O lineup do primeiro dia já tá pronto. Pro segundo dia faltavam duas bandas. O Scavengers confirmou ontem, agora falta uma. E aí, o Merridew vem ou não?

-Deixa eu conferir. – Ele abriu uma tabela no computador. -Dia 16 eles vão tocar no Pandemonium, em Altbrück, daí a banda vai fazer um intervalo pra descanso no fim de semana e dia 19 eles tocam na Bockschafer Arena.

-Puta que o pariu, não dá pra encaixar eles pro dia 18? -Colin implorou ao agente. – A gente precisa de uma banda para o after hours.

-Como é que é isso?

-É um formato novo que a gente vai usar esse ano. Depois do headliner, a gente coloca mais uma banda pro fim de noite, pra quem quiser curtir. Andavam reclamando que o festival acabava cedo demais e….

-Não sei se eles vão aceitar- disse Roger, coçando a cabeça.

– Pensa bem! Um “anúncio de última hora” da vinda deles vai atrair muitos fãs.  Vai ser o maior público da turnê, com certeza!

O agente ponderou e respondeu.

-É… Eu posso remarcar o intervalo. Vou conversar com eles.

-Então isso é um sim?

-Hum… sim.

-Então está confirmado: o Merridew está no Whack’em Festival. Dia 18, palco 2, às 01h00.

-OK…

Colin encerrou a ligação.

O agente pôs-se a discar outro número. Esperou a linha tocar seis vezes até alguém atender.

         -Alô- disse uma voz baixa do outro lado, queixosa e um tanto sonolenta. – Putz, que dor de cabeça!

       -Patrick? Onde você tá?

-Roger? Eu tô no ônibus com a maior ressaca. Por favor, fala mais baixo!

-Viu, vocês vão tocar no Whack’em dia 18.

Patrick Childs, guitarrista e líder do Merridew, se levantou num só salto do sofá do ônibus que levava a banda na turnê False Dichotomy.

-Quê? Cê tá louco, meu?

– Qual é o problema? Podemos adiar o intervalo para a semana que vem.

-Porra, Roger, no Whack’em a gente não toca!

-Por que não?  Que merda de músico é você que quer deixar passar a chance de tocar num festival importante?

– E que merda de agente é você que toma decisão sem falar com a banda toda?  Você sabe quem vai estar lá esse ano, e onde eles tocam eu não toco!

– Ah, não vá me dizer que é por causa daquela discussão com o vocalista do Souverän. Já faz cinco anos que isso aconteceu. Eu pensei que estivesse trabalhando com profissionais aqui, não com crianças!

-Você não tem noção de como o cara é chato! Aqueles papos de seitas secretas e civilizações perdidas. Eu não quero saber disso, não mesmo.

-Calma, Patrick, são dois dias de festival. Pode ser que vocês se apresentem em dias diferentes e nem vejam a cara um do outro. Vou conferir.

Roger abriu o site da revista Headbangers no computador. A homepage já tinha sido atualizada com uma manchete que dizia: “Whack’em Festival- confirmado lineup final do evento”. Na galeria de imagens havia uma foto de um Patrick Childs de olhos esbugalhados, decorrentes de sua mania característica de não piscar durante os solos de guitarra. Uma legenda acompanhava a foto, dizendo: “Os senhores do thrash metal Merridew são os últimos a confirmarem participação.” Em outra chamada no site: “Devilish Delight e Souverän são os headliners dessa edição. Confira os horários aqui.”

Roger clicou na chamada.

-Vejamos. Dia 18 de julho, Palco Principal. Às 22h00, Souverän. 01h00, Merridew.

-Merda! – exclamou o guitarrista. – A gente vai tocar de madrugada? Não acaba meia-noite? Que horário louco é esse?

-É um formato novo… Vai ter bastante público, aproveitando o show do Souverän.

-E daí? Não quero tocar no mesmo evento que eles. Liga pro organizador do evento e cancela.

-Não dá! Já fomos anunciados.

-NÃO QUERO SABER! CANCELA!

Patrick ia desligar o telefone na cara do agente quando seu colega de banda, o baixista Larry Morgan, entrou no dormitório. Despenteado e segurando uma xícara de café, ele falou:

-Deixa que eu converso com o Roger.

            O guitarrista, irritado, jogou o celular para Larry e se dirigiu ao banheiro, batendo a porta.

-Não esquenta com o Patrick; assim que ele se recuperar da bebedeira ele muda de ideia- disse o baixista rindo – Quem é louco de perder o Whack’em?

-Beleza. Vai avisando os outros que eu já vou reservar o hotel. Menos mal que não temos que desviar muito do roteiro da turnê; fretar um avião está cada vez mais caro. – disse o agente.

-Quem dera a gente pudesse comprar um jato igual ao do Souverän. Seria bem louco a gente disputando corrida com eles, dominando os céus como ases.

  -É… Até lá a gente tem que chegar a disco de platina como eles.

—-

Dia 18 de julho chegou e milhares de espectadores ocupavam o gramado do parque onde o Whack’em Festival acontecia. O símbolo do festival (um esqueleto brandindo uma guitarra como se fosse um porrete) estampava faixas em todo o terreno, bem como placas na rodovia indicando a direção para o local dos shows.

Era fim de tarde e no palco secundário a novata Guttural Assault, uma das promessas do black metal, se apresentava. Nas primeiras filas, jovens fãs se entrechocavam num mosh pit frenético.  No palco principal, os veteranos Scavengers, em sua turnê de despedida.

– Eu não acredito que eles vão acabar- disse um homem de jaqueta de couro e longa barba branca, sem disfarçar as lágrimas.

-Tudo tem seu fim, amigo. Ao menos a música será eterna- disse outro, calvo e de bigode, dando tapinhas em seu ombro.

A apresentação dos Scavengers acabou às 21h30 horas. Logo em seguida os roadies do Souverän subiam ao palco, carregando e preparando os instrumentos, fazendo a passagem de som para o  show mais esperado da noite.  No camarim, o Merridew esperava sua vez de tocar. Brett Anderson, vocalista, fazia exercícios fonoaudiológicos. Wayne Morgan contava uma piada para o baterista Michael DeFilipo, que ria muito. Patrick Childs estava taciturno em um canto.

Wayne se aproximou de Patrick e disse:

-Viu quanta gente lá fora? A gente nunca teve um público assim. Vai ser o melhor show da banda!

– Esse after hours, não sei não. Não quero encontrar meia dúzia de gatos pingados depois que a galera que só veio ver o Souverän for embora. Quero dizer, eles tem bem mais fãs que a gen…. – disse Michael.

Patrick deu um olhar carregado ao baterista.

-Que foi que eu falei de errado?- perguntou Michael.

O baixista articulou com os lábios o nome da outra banda, sem emitir som.

– Ah, você não vai com a cara do Anders Ekmann, né? Aquele dia em que ele falou de um incidente bizarro que aconteceu numa cidadezinha da América Latina. Que que era mesmo?

Cenas de cinco anos atrás, de um show em Cedartown, vieram à cabeça de Patrick. O Merridew, em começo de carreira, era a banda de abertura do Souverän naquela turnê, e após o concerto ambas foram confraternizar num bar. Lá, Ekmann começou a contar que tinha lido uma notícia num jornal sensacionalista sobre moradores de uma cidadezinha que disseram ter visto luzes no céu e a estátua de bronze da praça flutuando no ar e se dissolvendo. Patrick sempre fora cético quanto a essas histórias, mas sua contraparte estava convicta de que aquilo tinha acontecido de verdade. A isso se seguiu um bate-boca, que poderia ter evoluído para uma briga não fossem os seguranças e os deixa-disso dos dois lados.

Patrick crispou as mãos e disse:

– Se eu encontrar aquele palhaço no backstage, não responderei pelos meus atos, podem ter certeza.

Wayne e Michael trocaram olhares despreocupados, como se considerassem aquilo apenas uma provocação vazia. Brett comentou:

– Descarrega essa raiva na música, cara.

Uma nuvem de fumaça invadiu o palco. Feixes de luz varriam o espaço e o som de trombetas se ouvia de alto-falantes posicionados junto ao público. Refletores foram se acendendo um a um, revelando silhuetas que emergiam da nuvem.

-Boa noite, Whack’em! Nós somos o Souverän! – berrou Anders Ekmann no microfone – Essa aqui vai estar no disco novo.

Aos primeiros acordes de guitarra de “I’ll Fight Till I Die”, o público vibrou. Era uma música com arranjo um pouco mais pop, seguindo a tendência de Focus of Ire, o álbum anterior, que vendeu meio milhão de cópias mundialmente. Após essa canção seguiram-se as mais antigas “Not If, But When” e “Sovereign Kings”, que nunca faltava no setlist.

A plateia estava muito animada com o desempenho dos músicos.  Objetos foram atirados ao palco, incluindo bandeiras com o logo do grupo, algumas calcinhas e até um dinossauro inflável gigante, ao qual o guitarrista do Souverän, Heinrich Ritter, recolheu dizendo que seria a nova mascote da banda.

O Merridew assistia ao show no camarim, por um monitor.

-Olha só esse Ritter, que figura!- comentou Michael. -Ele sabe trabalhar o público. Que é que você acha, Wayne?

-Ah, ele até que é bom, mas nada espetacular.  Nessa última ele atrasou um pouco o riff, depois do primeiro refrão, você percebeu?

-Que é que você sabe de riff?  Você é baixista!

-E você é baterista!

-Esquece isso. Vamos continuar assistindo.

Os músicos do Souverän pararam de tocar e ficaram assim por cinco minutos, que pareceram muitos mais para o público ansioso. Alguns membros da plateia, mais experientes, já sabiam o que vinha a seguir.

Hey sad eyed man/Your eyes are turning red…” começou a cantar Anders. “You’re doing the best you can /But I can see you’re getting mad …” — continuou a multidão, em uníssono. O momento havia chegado: a canção que se tornara um hino do grupo, Focus of Ire, incendiou o Whack’em Festival.

Wayne acompanhava o ritmo da música com balanços de cabeça.  Brett batia o pé, um pouco menos empolgado. Patrick se levantou, irritado:

-Vocês estão muito relaxados pra quem vai tocar depois! Ainda mais ouvindo esse babaca.

-Patrick, por que tanta implicância? O negócio aconteceu faz tempo. Deixa o cara acreditar no que quiser!

-Não é só isso, Brett. Foi a maneira estúpida, arrogante com que ele me respondeu aquele dia.

-Ele nem deve se lembrar daquilo.

-O filho da puta se achava o dono da verdade, acreditando naquela baboseira de tabloide. Eu estava no meu direito de questionar o cara. – Patrick não piscava, da mesma maneira quando tocava seus solos de guitarra.

– Você está sendo idiota. Para com isso. – Brett disse com firmeza.

“Can you feel this fire/they’re the focus of your ire” -cantou Anders no palco. O arrebatamento do público era completo.

Algumas das pessoas no festival estavam sendo filmadas e exibidas num telão, sorridentes e entoando a letra a todo fôlego. Naquele momento, era um garoto adolescente, que não destoava dos demais fãs de heavy metal no show (cabelo comprido, camiseta preta, um tanto gordinho), mas que olhava fixamente para Anders.

O vocalista, ao ver o garoto no telão, subitamente parou de tocar.

      -N-não! Isso que você está me pedindo é a-absurdo. Vocês não podem c-continuar com essa loucura! – disse atônito.

O público ficou perplexo. Grupos de pessoas começavam a se inquietar e cochichar; quem da plateia estaria atrapalhando o show? Os demais integrantes do Souverän se entreolharam, a perplexidade estampada em seus rostos. Heinrich Ritter se aproximou do colega, mas ele o afastou com um gesto de braço.

O garoto da plateia continuava encarando o vocalista, com mais intensidade. Ele viu, ou pensou ter visto um tênue brilho violeta ao redor do menino.

-O qu-que aconteceu em Liergeel ano passado foi obra de um de vocês! Em Villanueva… E na Ásia! Disso eu sei!  Eu não quero ter parte nisso! Saia daqui! Deixem eles em paz! – Sua voz e linguagem corporal transpareciam pânico.

  “Desculpem, pessoal, mas não posso mais cantar. É sério! Algo terrível vem acontecendo e continua a acontecer no mundo todo. Vocês todos estão correndo risco. É melhor… É melhor… irem embora! Fiquem longe desse moleque!”

Ele jogou o microfone do chão e estava prestes a deixar o palco. O ruído estridente do feedback cortou o ar, irritando os ouvidos de todos os presentes.

-Ah não! Ele está com essa conversa de novo. Vou dar um jeito nesse louco!- disse Patrick, irado. Antes que Brett conseguisse barrar a porta, o guitarrista do Merridew já tinha deixado o camarim.

No festival, o ar ondulou com a mesma aura violácea que Anders (agora tinha certeza) vira ao redor do menino. A expressão do garoto tinha mudado; agora era serena.

They are doing their things/ripping of your wings/what can I do?- berrava Anders no microfone.  Mas o que aconteceu? O tempo voltou? Eu estava prestes a deixar o palco– pensava o vocalista.  Ao seu redor, os músicos tocavam da mesma maneira que antes, como se nada tivessem percebido.

A sensação de lapso temporal se fora rapidamente, como uma onda de choque. O vocalista já estava fora do palco, correndo em direção à estrada. O público e a imprensa especializada se acotovelavam em direção a ele, curiosos para saber o que tinha acontecido. Seguranças foram mobilizados ao longo das saídas da pista e das grades que a delimitavam, para impedir que a massa de gente o alcançasse, bem como as equipes de emergência, que já estavam de prontidão caso alguém se ferisse no tumulto.

Anders olhou para trás. Procurou o garoto, mas não conseguiu mais vê-lo entre a multidão. Virou-se novamente em direção à estrada. Eventos de natureza absurda estavam devastando o mundo, e ele e queria estar o mais longe possível da causa deles.

Patrick chegou ao palco, ofegante e possesso. Olhou para os lados, perguntando:

-Anders! Cadê você, seu maldito?

O guitarrista do Merridew estava praticamente sozinho lá em cima. Vendo a comoção na platéia, que já se transformava em um estouro, ele perguntou.

-O que está acontecendo?- perguntou para um dos roadies, que recolhia a guitarra de Heinrich Ritter.

-E-eu não sei. Ele surtou, começou a falar umas coisas sem nexo e saiu do show. Os outros foram atrás dele.

Um sujeito de meia idade, corpulento e com ar preocupado subia ao palco. Era Colin, o organizador do Whack’em. Ele tomou o microfone e disse ao público:

-Gente! Infelizmente, teremos que interromper o Whack’em Festival. Por favor, fiquem calmos. Nossa equipe vai se juntar ao Souverän e tentar resolver essa situação. – E para Patrick, ele falou:

-Desculpem. Sei tanto disso quanto vocês.

Wayne, Brett e Michael seguiram Patrick. Ao receberem a notícia, olharam decepcionados e desceram do palco de volta ao ônibus. No caminho, Wayne parou e apontou para o horizonte:

-Sou só eu ou tem em um vulto ali? Parece uma coisa meio roxa.

-Tem um vulto menor também. É um menino? –comentou Brett.

– Não é nada! Vamos embora dessa merda! Eu falei. Nem devíamos ter vindo aqui. Eu sabia! Louco do caralho! -disse Patrick, fechando a porta do ônibus.

—-

Roger estava encerando sua prancha de surfe quando recebeu uma ligação do celular. Era o executivo da gravadora.

-Roger, amigo, como vai?

-Bem, na medida do possível.

-Como é que está o Patrick?

– Ainda na terapia de controle da raiva. A doutora Fairchild está fazendo um bom trabalho.

– Quando você acha que o Merridew vai se reunir de novo?

-Não sei, Martin. Desde o Whack’em ninguém está querendo ensaiar ainda. Sei lá…

-É… chato.

-Falando nisso, já faz seis meses e ainda não acharam o Anders Ekmann. Alguém tem alguma pista do paradeiro dele?- disse Roger.

-Nenhuma; tudo na mesma.-respondeu Martin.- Mesmo com a banda declarando hiato, a Fortress Records está vendendo boxes do Souverän como nunca.

-Tragédias vendem, infelizmente. Na verdade, acho que vou largar esse ramo de agenciar músicos. Muito estressante.

-Vai fazer o quê da vida?

-Por enquanto, vou pegar onda.

 

O Bloemencorso

por Daniel Souza

 

 

-Madame Greta! Já estamos acabando. Por favor, espere mais um pouco aí fora!

-Não, não, não! Eu faço questão de ver os últimos retoques.

Me enfiei no galpão, passando pelo rapaz que estava de guarda na porta. Dezenas de pessoas do bairro martelavam e lixavam tábuas, arrematavam tiras de pano e colavam flores de todas as cores sobre estruturas de aço, madeira e isopor: narcisos, tulipas, jacintos e principalmente dálias, colhidas frescas nos campos e fazendas da região.

-Está lindo!

– Gostou, madame Greta? –disse o rapaz- O carro da floricultura Krans tem tudo para recuperar o título do Bloemencorso desse ano.

-Não encontro palavras pra expressar meu encanto!

O Bloemencorso é o Desfile das Flores, uma festa realizada em muitas cidades de todo o país para celebrar a chegada da primavera. A cada ano os moradores se reúnem e trabalham para criar os mais espetaculares carros alegóricos decorados com flores. Minha rede de floriculturas patrocina uma das equipes de Liergeel, a mais vitoriosa da cidade. Nós perdemos no ano passado, mas vamos nos reerguer.

-Olha que dragão maneiro, tia!

-Não é, Bernie querido?–falei a meu sobrinho, que veio junto comigo- Este ano vamos arrasar com os Oudekirk- donos da floricultura concorrente, campeã do ano anterior.

-Solta até fogo. Querem ver? -disse um dos trabalhadores, acionando um botão.

-Mostra, mostra! -disse Bernard. Desde criança ele adora ver os carros, especialmente quando têm algum truque ou surpresa para o público.

– Jeroen, aqui não. – falou outro voluntário, tomando-lhe o controle- Vai provocar um incêndio.

-Está tudo ótimo, pessoal; vocês fizeram um bom trabalho! Infelizmente não vou poder assistir ao desfile desta vez. – disse à equipe.

– Mas aonde você vai, madame? –perguntou Jeroen.

– Tenho que estar no aeroporto daqui à uma hora. A convenção dos floricultores de Cedartown é amanhã. Vai ser cansativo: doze horas de vôo.

-Mas onde já se viu marcar uma convenção de floricultores bem no dia do Corso? Essa gente não tem sensibilidade? – disse o chefe da equipe.

-Eu disse isso a eles, mas tenho que substituir uma palestrante que ficou doente; precisavam de outra especialista em flores de bulbo, daí eles me chamaram. Desculpem o aviso de última hora.

-E o Bernard? Onde vai ficar?

-Eu já sei me virar, cara. – respondeu Bernard. -Não sou o sobrinho mimado da titia que vocês pensam que sou. Além do mais, o Sr. De Vries vai estar no camarote dos patrocinadores. Eu posso ir lá assistir a qualquer hora.

-É verdade. Bom, gente, parece que acabamos. –disse o chefe. Todos estão de parabéns. Deixem a cola secar e no começo da noite, vamos todos levar os carros para o ponto de partida do desfile.

-Boa viagem, madame Greta -disseram todos.

Os voluntários saíram contentes do galpão, dando-se tapinhas nas costas, rindo e dizendo coisas como “toma essa, Oudekirk”.

Antes de eu mesma deixar o galpão, chamei Bernard e lhe disse:

-Você não vai ao camarote.

-Ah, tia! Por que não? A gente sempre assiste o desfile lá.

-Você disse bem, “a gente” assiste, pois sozinho você não vai. Eu sei que a primeira coisa que você vai fazer quando entrar lá é correr para o bar e pegar uma dose de cerveja ou uísque, como na festa de Ano-Novo.

-Pfff… Que saco! Até parece que eu sou o tio Henk.

-Bernard, nem de brincadeira fale do problema do seu tio. Alcoolismo é uma doença, e ele está se tratando.

– Eu tenho bom-senso, pô!

-Enquanto você não tiver idade para beber, você não vai tomar uma gota que seja de álcool, entendido? Eu sou sua responsável legal.- disse, olhando nos olhos dele.

-Ah, é? Então o que você vai fazer pra me impedir de ir lá? Logo mais você vai pegar o avião pra essa sua convenção aí.

-Você acha que eu seria irresponsável a ponto de deixá-lo sozinho? Minha irmã Zoë vem hoje. Faça companhia para ela, por favor.

-O quê?! Aquela chata moralista e intrometida? Que beleza, hein, tia?! Você sabe como estragar a festa.

-Não quero saber de reclamação. Ela vem hoje e não vai deixar que nada de mal aconteça. Divirtam-se no desfile.

Entrei no carro, dei a partida e segui rumo ao aeroporto. Ah! Já ia me esquecendo:

-Ela vai chegar à rodoviária, às quatro da tarde. – gritei da janela para Bernard.

————————————

-Sophia, aonde você vai?

-Vou dar uma voltinha na avenida ver as decorações. – disse a meu pai.

-Tudo bem, mas volte cedo. – falou minha mãe.

-Fiquem tranqüilos; podem confiar em mim. –disse, abrindo o portão de casa.

De fora consegui entreouvir meu pai falar: “A Sophia já gastou toda a mesada. Não dê mais dinheiro para ela…” Não, pai, vinte pratas da mãe não dá para nada.

A avenida Van Boomen fica tão bonita nessa época do ano! Todas as guirlandas e fitas nos postes… Papai adora os preparativos do Bloemencorso, mesmo que parte deles tenha de sair do bolso dele, ou melhor, do Grupo De Vries, S.A. Ele, mamãe e seus colegas vão assistir ao desfile no camarote (como todo ano), mas eu comecei a me cansar de passar o tempo inteiro naquele aquário, aturando conversas de negócios e outras chatices.  É melhor curtir a festa na rua, zoar um pouco com alguns colegas, não é?

Quem é aquele cara do outro lado da rua, de cabeça baixa e chutando uma latinha? Parece que eu o conheço. É!  É ele sim!

-Oi, Bernard!

Ele não me ouviu.

-BERNARD! Aqui!

-Ah, oi, Sophia.

-Como é que estão os carros da equipe Krans? Quero ver se eles vão superar os da Oudekirk amanhã.

-Ah, estão bem legais.

Voltou a baixar a cabeça. Que será que ele tem?

-Pra onde você tá indo, Bernard.

-Depois a gente conversa.

Que estranho. Vou esperar ele se afastar um pouco para segui-lo à distância.

            Virou à direita na esquina da loja de animais, agora está seguindo reto. Ou ele vai para a rodoviária ou vai… não, para a rodoviária mesmo. Quem ele está esperando?

São cinco para as quatro. O Bernard está de frente para a plataforma dois. Tem um ônibus azul chegando. Ele para na dois. Os passageiros descem. Entre eles, uma velha de chapéu florido desce com duas sacolas. Ela vê Bernard e sorri:

-Bernie, você está aí! Venha dar um abraço na tia Zoë.

Bernard bufa. Ele estende os braços sem vontade até ela.

-E aí, tia?

-Ah, como eu estou ansiosa pelo desfile! –ela fecha os braços em torno dele com força- Pena que a Greta não possa assistir, sempre atarefada, mas é por isso que eu estou aqui.

O Bernard já me falou dessa tia Zoë. Ele não estava mentindo quando disse que ela é bem pegajosa.

-Antes de ir para casa, vou passar na confeitaria e comprar waffles. Quer um?

-Não, tia. Eu espero fora da loja, tudo bem?

-Você é que sabe. Vamos?

Bernard e a tia estavam saindo da rodoviária. Não me viram. Saí um pouco depois.

Encontrei Bernard na porta da confeitaria.

-Sophia? Você está me seguindo?- perguntou.

-Ah… é que… eu queria perguntar onde é que você ia passar o Bloemencorso. Você vai ao camarote do meu pai?

-Bem que eu queria… – disse num tom amargo. A tia Greta saiu de viagem e me deixou sozinho com a irmã dela. Do jeito que é grudenta, ela não vai sair do meu pé. E acha que a companhia “desses magnatas” não vai fazer bem pra mim. Pô, eu só quero curtir, pegar uma breja escondido no frigobar, talvez um champanhe…

-Ei, e precisa ir ao camarote pra beber?- falei, botando um pouco de razão na cabeça dele- Qualquer mercado ou loja de conveniência serve, dãã!

– Verdade… Que vacilo o meu.

-Eu não vou assistir ao Corso lá, e conheço um cara que consegue arranjar umas, se você quiser. Que tal?

-Ah, legal!- ele sorriu- Não tinha pensado nisso. Mas ainda tem a tia Zoë… Ela vai fazer o maior escândalo se pegar a gente.

-Relaxa, a gente dá um jeito.

-Voltei!- disse a tia Zoë saindo da loja, carregando um embrulho de papel- Quem é essa garota, Bernard? É sua amiga?

-É. É a Sophia, da escola. -disse, mal disfarçando o rosto avermelhado.

-Muito prazer – eu a cumprimentei.

-Você tem um rosto familiar- disse Zoë, me encarando. Não gostei daquele olhar- mas não tenho certeza de quem você me lembra.  Está animada para o desfile?

-Ah, estou sim, de verdade.

-Eu também! Faz anos que não venho à minha cidadezinha para assistir. É o melhor Bloemencorso do mundo!

Bernard olhou para mim impaciente, como se pedisse: “Que idéia você teve para me livrar dessa encrenca?” Eu olhei para ele de volta com uma cara de “Não me apressa; isso tem que ser bem pensado”.

-Bom, precisamos ir. Até amanhã!

-Até amanhã. A gente se vê lá, Bernard.

Tia e sobrinho seguiram para casa.  Também voltei para a minha, ainda sem uma idéia de como ajudá-lo. A banda marcial fazia o último ensaio na rua, os escoteiros terminavam de montar a barraca de lanches (o dinheiro das vendas seria revertido para o Lar de Idosos da província, dizia no cartaz) e a tenda do júri e o camarote dos patrocinadores já estavam erguidos.

Atrás de uma cerca de ferro, no começo da avenida, os carros alegóricos começavam a se alinhar. Não dava para ver direito, com a polícia de guarda na frente, mas acho que vi a ponta de uma asa vermelha, dessas de dragão.

Abri a porta de casa.

-Como está a cidade lá fora?- perguntou mamãe.

– Está bem bonita. Encontrei o Bernard Blume na rua.

-Ah, o sobrinho de Greta, da floricultura Krans. Eles vêm assistir ao desfile conosco?

– Não. Ela está viajando.

-Greta viajando no dia do Corso? Isso é estranho. Deve ser algum compromisso de trabalho; só isso a faria perder a celebração. -disse papai.

– Outra tia veio para ficar cuidando do Bernard. Eu não a conheço, só de ouvir falar. -expliquei

-Será a Zoë? Ela não vem para Liergeel há anos.

-É essa mesma.

-E eles não poderiam vir à tribuna de honra? Seriam muito bem-vindos- perguntou papai.

Mamãe fez uma cara feia quando ouviu o nome dela, parecida com o da própria Zoë quando a conheci.

-Bem, eu acho que eles vão assistir o desfile na rua mesmo. E, pra falar a verdade, eu também vou.

-Hã? Você prefere assistir na rua mesmo?- disse mamãe.

-Sim.

-Bem, acho que você já está crescida e pode tomar suas próprias decisões.-ela  disse.

-Só tome cuidado.- disse papai- Embora esta seja uma cidade tranqüila, sempre existem riscos.

– Não precisam ter medo. Eu vou assistir com o Bernard e a tia dele.

-Menos mal. Mas leve o seu telefone celular e ligue para mim para eu vir te buscar. Estarei com o meu tempo todo.

– Está bem.

À noite, quando meus pais já estavam dormindo, o celular vibrou. Sorte que estava no modo silencioso.

Do outro lado da linha:

-Alô! – falou uma voz abafada.

-Quem é?

-E aí, Patricinha, beleza?

-Ah, fala, Johan.

Odeio quando me chamam de Patricinha.

-Vai mesmo colar com a gente amanhã no Corso?

-Vou, vou. Escuta, tem problema se eu trouxer um amigo também?

-Ih, depende… Pode ficar meio embaçado. Ele não vai cagüetar a gente, vai?

-Que é isso, cara!- eu quase gritei em voz baixa (se é que isso é possível)- Garanto que ele não vai estragar o esquema.

– Quero só ver. Atrás da igreja da Tulipaner, antes de os carros alegóricos saírem. Não esqueça.

-Não vou, prometo.

Desliguei o telefone e pensei: será que a gente vai se meter em encrenca? Eu quero ajudar meu amigo, mas como é que eu vou ter certeza de que as coisas vão dar certo? E ainda mais, como despistar a tia Zoë? Vou ter que desviar a atenção dela.

Já é meia-noite e meia. Uaaahh! Que sono… Amanhã eu dou um jeito nisso. É besteira me preocupar agora.

————————————–

-Cara, você tem isqueiro? Esqueci o meu em casa.

-Peraí, deixa eu ver na mochila. Hum… chave, cartão, CD…  achei.  Toma aí.

-Valeu.

Abri um maço que estava no meu bolso e acendi um cigarro. O céu estava cinzento, mas o sol aparecia entre as brechas das nuvens; algumas pessoas já saíam às ruas para assistir ao desfile. Poucas passavam por trás da igreja na avenida Tulipaner. Para a gente, isso era ótimo.

-Quando é que você disse que a minazinha ia vir mesmo?

-Assim que os carros saíssem. Parece que ela vem junto com um amigo.

-Xiii… isso vai dar merda, Johan. Já fiquei com um pé atrás quando ela veio conversar contigo semana passada. O que é que você quer dela, hein? Ela é menor e eu não quero complicação com isso.

– Não é nada disso, Kees! Pensa um pouco: a menina está entediada vivendo naquele mundinho burguês. O que ela quer é algo mais… um sopro de vida, sabe?- falei, jogando a bituca no muro da igreja e acendendo outro.

-É…tá certo. Mas o outro cara, qual que é a dele?

-Sei lá. Isso é com a Patricinha.

As calçadas já estão lotadas! Nem percebi o tanto de gente que apareceu em pouco tempo.  Agora vem o cara checando o microfone, Testando, 1,2,3… Logo, logo começa a porcaria do Bloemencorso.  Esse festivalzinho enche o saco todo ano. Que graça tem sair na rua com uns pedaços de isopor e madeira enfeitados de flor? Depois do desfile tudo vira lixo: as flores murcham, os panos viram trapos e o isopor acaba matando engasgado algum pombo idiota. É inútil.

-Ô, Kees- falei- Espia na rua e me fala se tem uma menina loira de olho verde, com uns catorze ou quinze anos.

-Vou ver. -Olhou para um lado e para o outro- Por enquanto não.

-Continua vigiando.

Que demora! Eu podia ligar para ela, mas estou sem trocado pro telefone público e não tenho celular.

-Cara, agora parece que eu tô vendo uma menina loira de olho verde na outra calçada. –disse Kees.- Ela está de blusa roxa e calça jeans clara. Está sozinha.

-Vou ver se é ela.

Era sim. Ela estava olhando para o lado esquerdo, na direção de onde passariam os carros.  Depois olhou para a torre da igreja e, hesitando, atravessou a rua.

-É… e aí, Johan?

-Aí, Patricinha, chegou cedo, hein? Cadê o seu amigo?

-É… não sei… estou esperando ele. Enquanto ele não chega, você compra uma garrafa de cerveja no mercado? Estou com o dinheiro aqui- Ela abriu a bolsa e tirou uma nota de 20 da carteira. Eu a peguei e entreguei para o Kees.

-Vai lá, amigo? Você não está manjado.

-Tá…- resmungou. Antes de ele ir à loja, a menina teve uma ideia.

-Compra também uma de refrigerante.

Kees bufou e foi andando até a quadra seguinte, onde fica o mercado.  É um servicinho fácil, não tem do quê reclamar. Em três minutos voltou com as compras.

-Aqui- entregou a sacola para mim. Refrigerante, cerveja e copos plásticos. – Toma seu troco- disse à menina.

Ela conferiu as notas e moedas. Estava certo.

-Melhor do que fazer carteirinha falsa é pedir pra alguém mais velho. – falou a garota, sorrindo.

-Estamos aqui para isso, não é?-falei.

– Quem é ele, Johan?- ela perguntou, se referindo ao Kees.

-Esse aí é meu camarada. Ele também está aqui pra curtir o desfile.

Peguei dois copos e misturei um pouco de cerveja e um pouco de refri em um deles. Entreguei o misturado para a ela. No meu, só breja mesmo.

– Esse é pro Bernard- disse a menina.

-Esse é o nome do seu colega? Quando é que ele vem, hein?!- falou Kees, impaciente.

-Calma. Ele deve estar com a tia dele. É uma senhora bem implicante- ela respondeu.

A voz do mestre de cerimônias começou a soar no microfone:

-Senhoras e senhores, cidadãos de Liergeel e turistas, é com muito orgulho que declaro aberto o Bloemencorso do ano de 1999, com o tema “Passado, Presente e Futuro”, neste sábado de primavera. O céu está um pouco encoberto, mas a cor e o perfume das flores trarão beleza a este dia. Agora são nove horas em ponto. Vamos dar início ao desfile dos carros alegóricos! Pedimos aos espectadores que fiquem em seus lugares.

– Vamos para a rua procurar por ele?  A gente vai ficar meio longe, pra não dar problema.

Kees levantou o capuz do moletom. Pus o boné na cabeça, guardei a sacola com as garrafas dentro do casaco, levantando a gola só pra garantir e saímos para a rua logo depois da Patricinha. Uma fanfarra marchava na frente do primeiro carro, que representava uma aldeia velha, com umas casas e árvores toscas, tudo coberto de flores. Em cima dele, pessoas fantasiadas acenavam para o público.

-Agora passa o primeiro carro alegórico, “A Praça do Mercado de Liergeel no Século XV”, construído pelas mãos habilidosas dos moradores do Centro Velho, com flores cedidas pela floricultura Oudekirk!- disse o mestre de cerimônias pelos alto-falantes instalados nos postes.  Os espectadores aplaudiram. Tsc, tsc, que vergonha.

A Patricinha olhava por entre as cabeças na multidão, procurando para lá e para cá. Parou o olhar numa velha com violetas no chapéu, depois num cara de cabelo castanho.

-Bernard!- ela começou a acenar para o cara, apontando o copo na mão. Achou o amigo, que não a viu. Mas a velha sim: ela cutucou o ombro do sobrinho e indicou a mina com a cabeça, só depois disso ele a percebeu.

-E aí, Sophia!- disse o tal Bernard.

-Bom dia, Sophia.- disse a velha. O que está achando do Corso?

– Até agora está muito bonito. Gostei do  primeiro carro.

-O carro da Oudekirk está bem-feito, mas o Bernie me disse que os da nossa Krans vai superar todos os concorrentes. Olha só, aí vem a Rainha do Corso! Vamos ver quem é.

Epa! É a Wanda Snijder, de coroa e faixa, naquele carrinho! A gente saía junto, até aquela briga que tivemos na praia nas férias do ano passado.  Enquanto ela passava e sorria, a tal Sophia entregava o copo de bebida ao amigo, falando alguma coisa no ouvido dele. Ele acenou a cabeça para ela e vieram em minha direção enquanto a multidão e a tia ficavam admirados com aquela maldita.

-Opa, vocês se livraram dela muito fácil, não?- disse para eles.

– A gente tinha que arriscar, e aquela era a hora perfeita.- falou a tal Sophia. -A gente volta logo.

-Obrigado pela bebida!- disse o amigo dela, dando um gole na mistura. – O perfume das flores disfarça bem o cheiro da cerveja. Ninguém desconfia.

Kees também veio até mim e falou:

-Já está na hora de agitar um pouco esse desfile.

-Concordo. – eu disse.

Abri a mochila, tirei um pedregulho de lá e o coloquei sorrateiramente no meio da rua. O carro da rainha chacoalhou com o impacto; se ela não tivesse segurado na grade, teria caído de lá.

-Opa, mas o que aconteceu? O carro da Rainha do Corso bateu em algum objeto e ela perdeu o equilíbrio. Mas parece estar tudo bem, ela já está se levantando – disse a voz nos alto-falantes.

-Não foi ela que te largou, Johan? Agora ela recebeu o que merecia. – disse Kees.

O colega da menina ficou puto com a gente:

-O que vocês estão fazendo? Estão loucos?

-Fica tranqüilo que é melhor pra você. -disse meu camarada.

-Vocês podiam ter matado a moça!- gritou a Patricinha.

-Ela só levou um sustinho – respondi.- Vai dizer que vocês se importam mesmo com essa porcaria.

-Você não sabe o quanto essa gente trabalhou pra fazer esses carros. -falou o colega dela.

-E você sabe, por acaso?

-Sei, porque minha tia é a dona da floricultura Krans. Se eu falar o que estão fazendo, a palhaçada de vocês acaba aqui.

-Sabia que esse moleque era cagueta.- disse Kees, segurando-o pela camisa.- Deixa que eu cuido do florzinha.

A tal Sophia surtou quando meu colega deu-lhe uma chave de braço, forçando-o contra o chão.

-Parem com isso, já! Parem! Bernard! Johan! Eu vou ligar pro meu pai.- Assim que ela tirou o celular da bolsa, eu o tomei dela e o atirei na calçada.

-Você que veio procurar a gente. Se não queria zoeira, era melhor ter ficado no seu mundinho. – disse Kees.

-Bico calado, menina! Ainda tem sorte de a gente não encostar um dedo em você. – falei.

O tal Bernard tentou se livrar do meu colega, mas não conseguiu e vomitou no chão. Começamos a rir.

-O cara não agüenta nem uma bebidinha diluída. Vai tomar leite, vai!

-Vambora, Kees. Deixa eles pra lá.

-E se dedurarem a gente?

-Vão nada. Eles vão é levar bronca daquela tia velha se falarem alguma coisa. Afinal, fomos discretos. Ninguém pode provar nada.

Kees largou-o no chão, caído no próprio vômito. Deixamos os dois moleques e esperamos o próximo carro passar. Era um ganso, ou um morcego, um sei-lá-o-quê gigante e vermelho.

“O próximo carro foi construído pelos moradores dos bairros Groenberg e Koningsweg, onde fica a floricultura Krans, da ilustre Greta Blume, que infelizmente teve um compromisso urgente e não está aqui para assistir. Este é o Dragão Vermelho, em homenagem ao herói da lenda local, Gijsbert van der Berg, que o tinha em seu brasão e lutou na Batalha de Koningsweg, acontecida há quatrocentos anos.”

Peguei uma pedra, maior e redonda, de dentro da mochila.

-Rola a pedra pra deixar mais perto do carro. -disse Kees.

Foi o que fiz. A pedra desviou por pouco.

-Que bosta! Pega outra!

-Eu não tenho mais.

-Como não tem? Só pegou duas pedras? Joga qualquer outra coisa,vai !

Fucei a mala, nervoso, a procura de qualquer coisa que servisse.

-A garrafa! Pega logo. – meu colega estava tão impaciente quanto eu.

“Preparem-se: o dragão tem uma surpresa para vocês. Vocês verão assim que ele chegar à praça central”.

-Surpresa mesmo é o que a gente preparou. – falei, quebrando a garrafa e espalhando os cacos sobre o asfalto.

Não deu outra: os pneus furaram, fazendo com que a asa direita do bicho raspasse num poste, arrancando as flores da decoração.  O carro parou.

Vozes de preocupação se ouviam nas calçadas: – O que aconteceu?  -Será que alguém está sabotando o desfile?  -Alguém tem que resolver isso.

-E esse é o segundo incidente no Bloemencorso. Teremos de interromper o desfile por alguns momentos. Fiquem calmos. A equipe de segurança e a polícia vão investigar o que está acontecendo.- disse o anunciante.

-Beleza! Não acreditei que fosse dar certo. – disse satisfeito para Kees.

– Missão cumprida. Agora vamos vazar. Rápido.

Deixamos a multidão e fomos por uma rua traseira fora do trajeto do desfile. Assim que saímos de lá, senti alguém me abraçando pelas costas. Caí ajoelhado na calçada, enquanto Kees tentava pular um muro.

-Não deixa ele fugir, Bernard!- era a voz da Patricinha, que não me deixava levantar.

– Tia Zoë! Vem me ajudar- dizia o amigo dela.

A velha que estava com eles vinha com um olhar furioso.

-Vocês deviam ter vergonha.- ela disse, puxando-o para baixo. –Estou surpresa de homens feitos como vocês quererem estragar o desfile como moleques malcriados.

-Como chegaram aqui?  Não há nada pra provar que fomos nós.

-A palavra de meu sobrinho e da amiga dele não valem nada? Eu estava vendo o carro com a Rainha do Desfile balançar e me assustei.  Olhei para os lados e me dei conta que o Bernard tinha sumido. Fui procurar onde ele estava. Dez minutos depois encontrei a amiga do meu sobrinho na quadra em frente ajudando-o a levantar do chão. Ele estava sujo e todo esfolado.  Eles contaram tudo para mim, sobre as bebidas e o resto.

– Foram eles que quiseram vir. Nós não obrigamos a nada. -falei

– Não obrigaram, e espero que eles tenham aprendido com a péssima experiência. (Não pense que não vou contar para a Greta, rapazinho.) Mas quanto a perturbar um evento tão querido por todo mundo, isso sim é que é problema.

-A gente pode explicar.

-Expliquem-se para a polícia.

Os homens chegaram. Fazer o quê.

Sem problema; perturbação da ordem não é um crime pesado. Daqui a um mês estamos de volta.

————-

Que confusão, esse desfile!  Parece que alguns jovens estavam sabotando os carros. Como não gosto de tumulto, nem fiquei sabendo o que aconteceu direito. É uma pena. Espero que tenham detido quem fez isso.  Ao menos peguei essa dália que foi arrancada do carro do dragão. Quem sabe alguma das sementes dela brote no jardim.

Voltei para casa e encontrei meu filho desenhando na mesa da sala, olhando algumas revistas eu quadrinhos.  Ele não quis ir ao desfile. Disse que não gosta. Se ele não tem vontade, não vou obrigá-lo.

-Piet. Tudo bem?

-Tudo- ele me respondeu, sem tirar os olhos do papel. Ele é sempre assim, quando está concentrado no desenho, nada desvia sua atenção.

-Vou preparar o jantar. Quando estiver pronto eu te chamo.

Deixei a dália em cima da mesa e fui para a cozinha.

-Tá.

Meia hora depois:

-O jantar está pronto! Tem lasanha.

Ah, sim, ele só para de desenhar na hora das refeições.

-Você não vai comer, mãe?- perguntou Piet.

-Daqui a pouco.

Fui ver os desenhos de meu filho. Um deles era um personagem com uma máscara preta pontuda, segurando pelo tornozelo uma mulher e um homem de terno com uma pasta cheia de dinheiro. O nome escrito no alto da folha era “Dark Justice”. O Piet anda lendo umas histórias em quadrinhos estrangeiras meio violentas. Os desenhos são muito carregados e cheios de sombras; eu nem sei quais personagens são heróis ou vilões, são todos muito parecidos.  Prefiro os quadrinhos com histórias engraçadas e traços mais claros.

Na outra folha de papel, esboços da dália que acabei de pegar.

-Nossa, nunca vi você desenhar flor. Está linda!  Você já está pegando o jeito!

-Sei lá, achei interessante.

 

dalia