Contos - Mundo em Ferrugem – O Bloemencorso

O Bloemencorso

por Daniel Souza

 

 

-Madame Greta! Já estamos acabando. Por favor, espere mais um pouco aí fora!

-Não, não, não! Eu faço questão de ver os últimos retoques.

Me enfiei no galpão, passando pelo rapaz que estava de guarda na porta. Dezenas de pessoas do bairro martelavam e lixavam tábuas, arrematavam tiras de pano e colavam flores de todas as cores sobre estruturas de aço, madeira e isopor: narcisos, tulipas, jacintos e principalmente dálias, colhidas frescas nos campos e fazendas da região.

-Está lindo!

– Gostou, madame Greta? –disse o rapaz- O carro da floricultura Krans tem tudo para recuperar o título do Bloemencorso desse ano.

-Não encontro palavras pra expressar meu encanto!

O Bloemencorso é o Desfile das Flores, uma festa realizada em muitas cidades de todo o país para celebrar a chegada da primavera. A cada ano os moradores se reúnem e trabalham para criar os mais espetaculares carros alegóricos decorados com flores. Minha rede de floriculturas patrocina uma das equipes de Liergeel, a mais vitoriosa da cidade. Nós perdemos no ano passado, mas vamos nos reerguer.

-Olha que dragão maneiro, tia!

-Não é, Bernie querido?–falei a meu sobrinho, que veio junto comigo- Este ano vamos arrasar com os Oudekirk- donos da floricultura concorrente, campeã do ano anterior.

-Solta até fogo. Querem ver? -disse um dos trabalhadores, acionando um botão.

-Mostra, mostra! -disse Bernard. Desde criança ele adora ver os carros, especialmente quando têm algum truque ou surpresa para o público.

– Jeroen, aqui não. – falou outro voluntário, tomando-lhe o controle- Vai provocar um incêndio.

-Está tudo ótimo, pessoal; vocês fizeram um bom trabalho! Infelizmente não vou poder assistir ao desfile desta vez. – disse à equipe.

– Mas aonde você vai, madame? –perguntou Jeroen.

– Tenho que estar no aeroporto daqui à uma hora. A convenção dos floricultores de Cedartown é amanhã. Vai ser cansativo: doze horas de vôo.

-Mas onde já se viu marcar uma convenção de floricultores bem no dia do Corso? Essa gente não tem sensibilidade? – disse o chefe da equipe.

-Eu disse isso a eles, mas tenho que substituir uma palestrante que ficou doente; precisavam de outra especialista em flores de bulbo, daí eles me chamaram. Desculpem o aviso de última hora.

-E o Bernard? Onde vai ficar?

-Eu já sei me virar, cara. – respondeu Bernard. -Não sou o sobrinho mimado da titia que vocês pensam que sou. Além do mais, o Sr. De Vries vai estar no camarote dos patrocinadores. Eu posso ir lá assistir a qualquer hora.

-É verdade. Bom, gente, parece que acabamos. –disse o chefe. Todos estão de parabéns. Deixem a cola secar e no começo da noite, vamos todos levar os carros para o ponto de partida do desfile.

-Boa viagem, madame Greta -disseram todos.

Os voluntários saíram contentes do galpão, dando-se tapinhas nas costas, rindo e dizendo coisas como “toma essa, Oudekirk”.

Antes de eu mesma deixar o galpão, chamei Bernard e lhe disse:

-Você não vai ao camarote.

-Ah, tia! Por que não? A gente sempre assiste o desfile lá.

-Você disse bem, “a gente” assiste, pois sozinho você não vai. Eu sei que a primeira coisa que você vai fazer quando entrar lá é correr para o bar e pegar uma dose de cerveja ou uísque, como na festa de Ano-Novo.

-Pfff… Que saco! Até parece que eu sou o tio Henk.

-Bernard, nem de brincadeira fale do problema do seu tio. Alcoolismo é uma doença, e ele está se tratando.

– Eu tenho bom-senso, pô!

-Enquanto você não tiver idade para beber, você não vai tomar uma gota que seja de álcool, entendido? Eu sou sua responsável legal.- disse, olhando nos olhos dele.

-Ah, é? Então o que você vai fazer pra me impedir de ir lá? Logo mais você vai pegar o avião pra essa sua convenção aí.

-Você acha que eu seria irresponsável a ponto de deixá-lo sozinho? Minha irmã Zoë vem hoje. Faça companhia para ela, por favor.

-O quê?! Aquela chata moralista e intrometida? Que beleza, hein, tia?! Você sabe como estragar a festa.

-Não quero saber de reclamação. Ela vem hoje e não vai deixar que nada de mal aconteça. Divirtam-se no desfile.

Entrei no carro, dei a partida e segui rumo ao aeroporto. Ah! Já ia me esquecendo:

-Ela vai chegar à rodoviária, às quatro da tarde. – gritei da janela para Bernard.

————————————

-Sophia, aonde você vai?

-Vou dar uma voltinha na avenida ver as decorações. – disse a meu pai.

-Tudo bem, mas volte cedo. – falou minha mãe.

-Fiquem tranqüilos; podem confiar em mim. –disse, abrindo o portão de casa.

De fora consegui entreouvir meu pai falar: “A Sophia já gastou toda a mesada. Não dê mais dinheiro para ela…” Não, pai, vinte pratas da mãe não dá para nada.

A avenida Van Boomen fica tão bonita nessa época do ano! Todas as guirlandas e fitas nos postes… Papai adora os preparativos do Bloemencorso, mesmo que parte deles tenha de sair do bolso dele, ou melhor, do Grupo De Vries, S.A. Ele, mamãe e seus colegas vão assistir ao desfile no camarote (como todo ano), mas eu comecei a me cansar de passar o tempo inteiro naquele aquário, aturando conversas de negócios e outras chatices.  É melhor curtir a festa na rua, zoar um pouco com alguns colegas, não é?

Quem é aquele cara do outro lado da rua, de cabeça baixa e chutando uma latinha? Parece que eu o conheço. É!  É ele sim!

-Oi, Bernard!

Ele não me ouviu.

-BERNARD! Aqui!

-Ah, oi, Sophia.

-Como é que estão os carros da equipe Krans? Quero ver se eles vão superar os da Oudekirk amanhã.

-Ah, estão bem legais.

Voltou a baixar a cabeça. Que será que ele tem?

-Pra onde você tá indo, Bernard.

-Depois a gente conversa.

Que estranho. Vou esperar ele se afastar um pouco para segui-lo à distância.

            Virou à direita na esquina da loja de animais, agora está seguindo reto. Ou ele vai para a rodoviária ou vai… não, para a rodoviária mesmo. Quem ele está esperando?

São cinco para as quatro. O Bernard está de frente para a plataforma dois. Tem um ônibus azul chegando. Ele para na dois. Os passageiros descem. Entre eles, uma velha de chapéu florido desce com duas sacolas. Ela vê Bernard e sorri:

-Bernie, você está aí! Venha dar um abraço na tia Zoë.

Bernard bufa. Ele estende os braços sem vontade até ela.

-E aí, tia?

-Ah, como eu estou ansiosa pelo desfile! –ela fecha os braços em torno dele com força- Pena que a Greta não possa assistir, sempre atarefada, mas é por isso que eu estou aqui.

O Bernard já me falou dessa tia Zoë. Ele não estava mentindo quando disse que ela é bem pegajosa.

-Antes de ir para casa, vou passar na confeitaria e comprar waffles. Quer um?

-Não, tia. Eu espero fora da loja, tudo bem?

-Você é que sabe. Vamos?

Bernard e a tia estavam saindo da rodoviária. Não me viram. Saí um pouco depois.

Encontrei Bernard na porta da confeitaria.

-Sophia? Você está me seguindo?- perguntou.

-Ah… é que… eu queria perguntar onde é que você ia passar o Bloemencorso. Você vai ao camarote do meu pai?

-Bem que eu queria… – disse num tom amargo. A tia Greta saiu de viagem e me deixou sozinho com a irmã dela. Do jeito que é grudenta, ela não vai sair do meu pé. E acha que a companhia “desses magnatas” não vai fazer bem pra mim. Pô, eu só quero curtir, pegar uma breja escondido no frigobar, talvez um champanhe…

-Ei, e precisa ir ao camarote pra beber?- falei, botando um pouco de razão na cabeça dele- Qualquer mercado ou loja de conveniência serve, dãã!

– Verdade… Que vacilo o meu.

-Eu não vou assistir ao Corso lá, e conheço um cara que consegue arranjar umas, se você quiser. Que tal?

-Ah, legal!- ele sorriu- Não tinha pensado nisso. Mas ainda tem a tia Zoë… Ela vai fazer o maior escândalo se pegar a gente.

-Relaxa, a gente dá um jeito.

-Voltei!- disse a tia Zoë saindo da loja, carregando um embrulho de papel- Quem é essa garota, Bernard? É sua amiga?

-É. É a Sophia, da escola. -disse, mal disfarçando o rosto avermelhado.

-Muito prazer – eu a cumprimentei.

-Você tem um rosto familiar- disse Zoë, me encarando. Não gostei daquele olhar- mas não tenho certeza de quem você me lembra.  Está animada para o desfile?

-Ah, estou sim, de verdade.

-Eu também! Faz anos que não venho à minha cidadezinha para assistir. É o melhor Bloemencorso do mundo!

Bernard olhou para mim impaciente, como se pedisse: “Que idéia você teve para me livrar dessa encrenca?” Eu olhei para ele de volta com uma cara de “Não me apressa; isso tem que ser bem pensado”.

-Bom, precisamos ir. Até amanhã!

-Até amanhã. A gente se vê lá, Bernard.

Tia e sobrinho seguiram para casa.  Também voltei para a minha, ainda sem uma idéia de como ajudá-lo. A banda marcial fazia o último ensaio na rua, os escoteiros terminavam de montar a barraca de lanches (o dinheiro das vendas seria revertido para o Lar de Idosos da província, dizia no cartaz) e a tenda do júri e o camarote dos patrocinadores já estavam erguidos.

Atrás de uma cerca de ferro, no começo da avenida, os carros alegóricos começavam a se alinhar. Não dava para ver direito, com a polícia de guarda na frente, mas acho que vi a ponta de uma asa vermelha, dessas de dragão.

Abri a porta de casa.

-Como está a cidade lá fora?- perguntou mamãe.

– Está bem bonita. Encontrei o Bernard Blume na rua.

-Ah, o sobrinho de Greta, da floricultura Krans. Eles vêm assistir ao desfile conosco?

– Não. Ela está viajando.

-Greta viajando no dia do Corso? Isso é estranho. Deve ser algum compromisso de trabalho; só isso a faria perder a celebração. -disse papai.

– Outra tia veio para ficar cuidando do Bernard. Eu não a conheço, só de ouvir falar. -expliquei

-Será a Zoë? Ela não vem para Liergeel há anos.

-É essa mesma.

-E eles não poderiam vir à tribuna de honra? Seriam muito bem-vindos- perguntou papai.

Mamãe fez uma cara feia quando ouviu o nome dela, parecida com o da própria Zoë quando a conheci.

-Bem, eu acho que eles vão assistir o desfile na rua mesmo. E, pra falar a verdade, eu também vou.

-Hã? Você prefere assistir na rua mesmo?- disse mamãe.

-Sim.

-Bem, acho que você já está crescida e pode tomar suas próprias decisões.-ela  disse.

-Só tome cuidado.- disse papai- Embora esta seja uma cidade tranqüila, sempre existem riscos.

– Não precisam ter medo. Eu vou assistir com o Bernard e a tia dele.

-Menos mal. Mas leve o seu telefone celular e ligue para mim para eu vir te buscar. Estarei com o meu tempo todo.

– Está bem.

À noite, quando meus pais já estavam dormindo, o celular vibrou. Sorte que estava no modo silencioso.

Do outro lado da linha:

-Alô! – falou uma voz abafada.

-Quem é?

-E aí, Patricinha, beleza?

-Ah, fala, Johan.

Odeio quando me chamam de Patricinha.

-Vai mesmo colar com a gente amanhã no Corso?

-Vou, vou. Escuta, tem problema se eu trouxer um amigo também?

-Ih, depende… Pode ficar meio embaçado. Ele não vai cagüetar a gente, vai?

-Que é isso, cara!- eu quase gritei em voz baixa (se é que isso é possível)- Garanto que ele não vai estragar o esquema.

– Quero só ver. Atrás da igreja da Tulipaner, antes de os carros alegóricos saírem. Não esqueça.

-Não vou, prometo.

Desliguei o telefone e pensei: será que a gente vai se meter em encrenca? Eu quero ajudar meu amigo, mas como é que eu vou ter certeza de que as coisas vão dar certo? E ainda mais, como despistar a tia Zoë? Vou ter que desviar a atenção dela.

Já é meia-noite e meia. Uaaahh! Que sono… Amanhã eu dou um jeito nisso. É besteira me preocupar agora.

————————————–

-Cara, você tem isqueiro? Esqueci o meu em casa.

-Peraí, deixa eu ver na mochila. Hum… chave, cartão, CD…  achei.  Toma aí.

-Valeu.

Abri um maço que estava no meu bolso e acendi um cigarro. O céu estava cinzento, mas o sol aparecia entre as brechas das nuvens; algumas pessoas já saíam às ruas para assistir ao desfile. Poucas passavam por trás da igreja na avenida Tulipaner. Para a gente, isso era ótimo.

-Quando é que você disse que a minazinha ia vir mesmo?

-Assim que os carros saíssem. Parece que ela vem junto com um amigo.

-Xiii… isso vai dar merda, Johan. Já fiquei com um pé atrás quando ela veio conversar contigo semana passada. O que é que você quer dela, hein? Ela é menor e eu não quero complicação com isso.

– Não é nada disso, Kees! Pensa um pouco: a menina está entediada vivendo naquele mundinho burguês. O que ela quer é algo mais… um sopro de vida, sabe?- falei, jogando a bituca no muro da igreja e acendendo outro.

-É…tá certo. Mas o outro cara, qual que é a dele?

-Sei lá. Isso é com a Patricinha.

As calçadas já estão lotadas! Nem percebi o tanto de gente que apareceu em pouco tempo.  Agora vem o cara checando o microfone, Testando, 1,2,3… Logo, logo começa a porcaria do Bloemencorso.  Esse festivalzinho enche o saco todo ano. Que graça tem sair na rua com uns pedaços de isopor e madeira enfeitados de flor? Depois do desfile tudo vira lixo: as flores murcham, os panos viram trapos e o isopor acaba matando engasgado algum pombo idiota. É inútil.

-Ô, Kees- falei- Espia na rua e me fala se tem uma menina loira de olho verde, com uns catorze ou quinze anos.

-Vou ver. -Olhou para um lado e para o outro- Por enquanto não.

-Continua vigiando.

Que demora! Eu podia ligar para ela, mas estou sem trocado pro telefone público e não tenho celular.

-Cara, agora parece que eu tô vendo uma menina loira de olho verde na outra calçada. –disse Kees.- Ela está de blusa roxa e calça jeans clara. Está sozinha.

-Vou ver se é ela.

Era sim. Ela estava olhando para o lado esquerdo, na direção de onde passariam os carros.  Depois olhou para a torre da igreja e, hesitando, atravessou a rua.

-É… e aí, Johan?

-Aí, Patricinha, chegou cedo, hein? Cadê o seu amigo?

-É… não sei… estou esperando ele. Enquanto ele não chega, você compra uma garrafa de cerveja no mercado? Estou com o dinheiro aqui- Ela abriu a bolsa e tirou uma nota de 20 da carteira. Eu a peguei e entreguei para o Kees.

-Vai lá, amigo? Você não está manjado.

-Tá…- resmungou. Antes de ele ir à loja, a menina teve uma ideia.

-Compra também uma de refrigerante.

Kees bufou e foi andando até a quadra seguinte, onde fica o mercado.  É um servicinho fácil, não tem do quê reclamar. Em três minutos voltou com as compras.

-Aqui- entregou a sacola para mim. Refrigerante, cerveja e copos plásticos. – Toma seu troco- disse à menina.

Ela conferiu as notas e moedas. Estava certo.

-Melhor do que fazer carteirinha falsa é pedir pra alguém mais velho. – falou a garota, sorrindo.

-Estamos aqui para isso, não é?-falei.

– Quem é ele, Johan?- ela perguntou, se referindo ao Kees.

-Esse aí é meu camarada. Ele também está aqui pra curtir o desfile.

Peguei dois copos e misturei um pouco de cerveja e um pouco de refri em um deles. Entreguei o misturado para a ela. No meu, só breja mesmo.

– Esse é pro Bernard- disse a menina.

-Esse é o nome do seu colega? Quando é que ele vem, hein?!- falou Kees, impaciente.

-Calma. Ele deve estar com a tia dele. É uma senhora bem implicante- ela respondeu.

A voz do mestre de cerimônias começou a soar no microfone:

-Senhoras e senhores, cidadãos de Liergeel e turistas, é com muito orgulho que declaro aberto o Bloemencorso do ano de 1999, com o tema “Passado, Presente e Futuro”, neste sábado de primavera. O céu está um pouco encoberto, mas a cor e o perfume das flores trarão beleza a este dia. Agora são nove horas em ponto. Vamos dar início ao desfile dos carros alegóricos! Pedimos aos espectadores que fiquem em seus lugares.

– Vamos para a rua procurar por ele?  A gente vai ficar meio longe, pra não dar problema.

Kees levantou o capuz do moletom. Pus o boné na cabeça, guardei a sacola com as garrafas dentro do casaco, levantando a gola só pra garantir e saímos para a rua logo depois da Patricinha. Uma fanfarra marchava na frente do primeiro carro, que representava uma aldeia velha, com umas casas e árvores toscas, tudo coberto de flores. Em cima dele, pessoas fantasiadas acenavam para o público.

-Agora passa o primeiro carro alegórico, “A Praça do Mercado de Liergeel no Século XV”, construído pelas mãos habilidosas dos moradores do Centro Velho, com flores cedidas pela floricultura Oudekirk!- disse o mestre de cerimônias pelos alto-falantes instalados nos postes.  Os espectadores aplaudiram. Tsc, tsc, que vergonha.

A Patricinha olhava por entre as cabeças na multidão, procurando para lá e para cá. Parou o olhar numa velha com violetas no chapéu, depois num cara de cabelo castanho.

-Bernard!- ela começou a acenar para o cara, apontando o copo na mão. Achou o amigo, que não a viu. Mas a velha sim: ela cutucou o ombro do sobrinho e indicou a mina com a cabeça, só depois disso ele a percebeu.

-E aí, Sophia!- disse o tal Bernard.

-Bom dia, Sophia.- disse a velha. O que está achando do Corso?

– Até agora está muito bonito. Gostei do  primeiro carro.

-O carro da Oudekirk está bem-feito, mas o Bernie me disse que os da nossa Krans vai superar todos os concorrentes. Olha só, aí vem a Rainha do Corso! Vamos ver quem é.

Epa! É a Wanda Snijder, de coroa e faixa, naquele carrinho! A gente saía junto, até aquela briga que tivemos na praia nas férias do ano passado.  Enquanto ela passava e sorria, a tal Sophia entregava o copo de bebida ao amigo, falando alguma coisa no ouvido dele. Ele acenou a cabeça para ela e vieram em minha direção enquanto a multidão e a tia ficavam admirados com aquela maldita.

-Opa, vocês se livraram dela muito fácil, não?- disse para eles.

– A gente tinha que arriscar, e aquela era a hora perfeita.- falou a tal Sophia. -A gente volta logo.

-Obrigado pela bebida!- disse o amigo dela, dando um gole na mistura. – O perfume das flores disfarça bem o cheiro da cerveja. Ninguém desconfia.

Kees também veio até mim e falou:

-Já está na hora de agitar um pouco esse desfile.

-Concordo. – eu disse.

Abri a mochila, tirei um pedregulho de lá e o coloquei sorrateiramente no meio da rua. O carro da rainha chacoalhou com o impacto; se ela não tivesse segurado na grade, teria caído de lá.

-Opa, mas o que aconteceu? O carro da Rainha do Corso bateu em algum objeto e ela perdeu o equilíbrio. Mas parece estar tudo bem, ela já está se levantando – disse a voz nos alto-falantes.

-Não foi ela que te largou, Johan? Agora ela recebeu o que merecia. – disse Kees.

O colega da menina ficou puto com a gente:

-O que vocês estão fazendo? Estão loucos?

-Fica tranqüilo que é melhor pra você. -disse meu camarada.

-Vocês podiam ter matado a moça!- gritou a Patricinha.

-Ela só levou um sustinho – respondi.- Vai dizer que vocês se importam mesmo com essa porcaria.

-Você não sabe o quanto essa gente trabalhou pra fazer esses carros. -falou o colega dela.

-E você sabe, por acaso?

-Sei, porque minha tia é a dona da floricultura Krans. Se eu falar o que estão fazendo, a palhaçada de vocês acaba aqui.

-Sabia que esse moleque era cagueta.- disse Kees, segurando-o pela camisa.- Deixa que eu cuido do florzinha.

A tal Sophia surtou quando meu colega deu-lhe uma chave de braço, forçando-o contra o chão.

-Parem com isso, já! Parem! Bernard! Johan! Eu vou ligar pro meu pai.- Assim que ela tirou o celular da bolsa, eu o tomei dela e o atirei na calçada.

-Você que veio procurar a gente. Se não queria zoeira, era melhor ter ficado no seu mundinho. – disse Kees.

-Bico calado, menina! Ainda tem sorte de a gente não encostar um dedo em você. – falei.

O tal Bernard tentou se livrar do meu colega, mas não conseguiu e vomitou no chão. Começamos a rir.

-O cara não agüenta nem uma bebidinha diluída. Vai tomar leite, vai!

-Vambora, Kees. Deixa eles pra lá.

-E se dedurarem a gente?

-Vão nada. Eles vão é levar bronca daquela tia velha se falarem alguma coisa. Afinal, fomos discretos. Ninguém pode provar nada.

Kees largou-o no chão, caído no próprio vômito. Deixamos os dois moleques e esperamos o próximo carro passar. Era um ganso, ou um morcego, um sei-lá-o-quê gigante e vermelho.

“O próximo carro foi construído pelos moradores dos bairros Groenberg e Koningsweg, onde fica a floricultura Krans, da ilustre Greta Blume, que infelizmente teve um compromisso urgente e não está aqui para assistir. Este é o Dragão Vermelho, em homenagem ao herói da lenda local, Gijsbert van der Berg, que o tinha em seu brasão e lutou na Batalha de Koningsweg, acontecida há quatrocentos anos.”

Peguei uma pedra, maior e redonda, de dentro da mochila.

-Rola a pedra pra deixar mais perto do carro. -disse Kees.

Foi o que fiz. A pedra desviou por pouco.

-Que bosta! Pega outra!

-Eu não tenho mais.

-Como não tem? Só pegou duas pedras? Joga qualquer outra coisa,vai !

Fucei a mala, nervoso, a procura de qualquer coisa que servisse.

-A garrafa! Pega logo. – meu colega estava tão impaciente quanto eu.

“Preparem-se: o dragão tem uma surpresa para vocês. Vocês verão assim que ele chegar à praça central”.

-Surpresa mesmo é o que a gente preparou. – falei, quebrando a garrafa e espalhando os cacos sobre o asfalto.

Não deu outra: os pneus furaram, fazendo com que a asa direita do bicho raspasse num poste, arrancando as flores da decoração.  O carro parou.

Vozes de preocupação se ouviam nas calçadas: – O que aconteceu?  -Será que alguém está sabotando o desfile?  -Alguém tem que resolver isso.

-E esse é o segundo incidente no Bloemencorso. Teremos de interromper o desfile por alguns momentos. Fiquem calmos. A equipe de segurança e a polícia vão investigar o que está acontecendo.- disse o anunciante.

-Beleza! Não acreditei que fosse dar certo. – disse satisfeito para Kees.

– Missão cumprida. Agora vamos vazar. Rápido.

Deixamos a multidão e fomos por uma rua traseira fora do trajeto do desfile. Assim que saímos de lá, senti alguém me abraçando pelas costas. Caí ajoelhado na calçada, enquanto Kees tentava pular um muro.

-Não deixa ele fugir, Bernard!- era a voz da Patricinha, que não me deixava levantar.

– Tia Zoë! Vem me ajudar- dizia o amigo dela.

A velha que estava com eles vinha com um olhar furioso.

-Vocês deviam ter vergonha.- ela disse, puxando-o para baixo. –Estou surpresa de homens feitos como vocês quererem estragar o desfile como moleques malcriados.

-Como chegaram aqui?  Não há nada pra provar que fomos nós.

-A palavra de meu sobrinho e da amiga dele não valem nada? Eu estava vendo o carro com a Rainha do Desfile balançar e me assustei.  Olhei para os lados e me dei conta que o Bernard tinha sumido. Fui procurar onde ele estava. Dez minutos depois encontrei a amiga do meu sobrinho na quadra em frente ajudando-o a levantar do chão. Ele estava sujo e todo esfolado.  Eles contaram tudo para mim, sobre as bebidas e o resto.

– Foram eles que quiseram vir. Nós não obrigamos a nada. -falei

– Não obrigaram, e espero que eles tenham aprendido com a péssima experiência. (Não pense que não vou contar para a Greta, rapazinho.) Mas quanto a perturbar um evento tão querido por todo mundo, isso sim é que é problema.

-A gente pode explicar.

-Expliquem-se para a polícia.

Os homens chegaram. Fazer o quê.

Sem problema; perturbação da ordem não é um crime pesado. Daqui a um mês estamos de volta.

————-

Que confusão, esse desfile!  Parece que alguns jovens estavam sabotando os carros. Como não gosto de tumulto, nem fiquei sabendo o que aconteceu direito. É uma pena. Espero que tenham detido quem fez isso.  Ao menos peguei essa dália que foi arrancada do carro do dragão. Quem sabe alguma das sementes dela brote no jardim.

Voltei para casa e encontrei meu filho desenhando na mesa da sala, olhando algumas revistas eu quadrinhos.  Ele não quis ir ao desfile. Disse que não gosta. Se ele não tem vontade, não vou obrigá-lo.

-Piet. Tudo bem?

-Tudo- ele me respondeu, sem tirar os olhos do papel. Ele é sempre assim, quando está concentrado no desenho, nada desvia sua atenção.

-Vou preparar o jantar. Quando estiver pronto eu te chamo.

Deixei a dália em cima da mesa e fui para a cozinha.

-Tá.

Meia hora depois:

-O jantar está pronto! Tem lasanha.

Ah, sim, ele só para de desenhar na hora das refeições.

-Você não vai comer, mãe?- perguntou Piet.

-Daqui a pouco.

Fui ver os desenhos de meu filho. Um deles era um personagem com uma máscara preta pontuda, segurando pelo tornozelo uma mulher e um homem de terno com uma pasta cheia de dinheiro. O nome escrito no alto da folha era “Dark Justice”. O Piet anda lendo umas histórias em quadrinhos estrangeiras meio violentas. Os desenhos são muito carregados e cheios de sombras; eu nem sei quais personagens são heróis ou vilões, são todos muito parecidos.  Prefiro os quadrinhos com histórias engraçadas e traços mais claros.

Na outra folha de papel, esboços da dália que acabei de pegar.

-Nossa, nunca vi você desenhar flor. Está linda!  Você já está pegando o jeito!

-Sei lá, achei interessante.

 

dalia

0 comment

    1. Gostar é algo que não dá pra fazer com isso! Simplesmente gostar é pouco pra uma obra dessas, tão maravilhosa e complexa em seu enredo e personagens com problemas mentais (ou não)!!! Obras assim são dignas de serem comparadas a complexidade de J.R.R. Tolkien, Lewis Carroll e C.S. Lewis!!! Adorei, amei!!! Demais uma obra de ficção dessas, demonstrando o íntimo de um personagem que ou sofre de alucinações ou é algum tipo de vidente/médium! Quero mais e mais, acompanho desde início do ano passado e tenho visto que as páginas publicadas a conta-gotas saem cada vez melhores, nos dando a ânsia de querer mais, sempre mais e mais!!!! Demais, sensacional!!!! Parabéns pelo trabalho de vocês e pelas músicas que sempre retratam muito bem o momento da história na qual são postadas!!!! Demais mesmo!!!! Muito foda!!!!

      1. Nossa! O que dizer?
        Muito obrigado pela resposta.
        Estamos felizes por ter gostado da história e dos personagens. Continue atento, pois ainda teremos mais histórias pela frente, tanto nos quadrinhos da Era da Ferrugem quanto nos contos de Mundo em Ferrugem.

  1. Hey “Déniel” hahahaha
    Tinha ficado um tempo sem passar por aqui (esperando acumular mais páginas) e me deparo com esse conto!! Muito bom!! Adorei!
    Escreva mais!!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *